Serra da Capivara

Serra da Capivara

 

 

Já estávamos surpresos com o Piauí, que apesar da fama dado pelos guias de turismo que citam como sendo o estado mais pobre do Brasil, se mostrou um estado bonito e bem estruturado. Cruzamos o estado e não vimos nada que pudesse retratar extrema pobreza e ficamos felizes por passar por diversas cidades com uma população muito trabalhadora. No caminho paramos para conhecer a cachaçaria Lira, sua produção é feita em um lindo sítio com várias árvores frutíferas. O processo na elaboração da cachaça é um exemplo de sustentabilidade. A água que move o moinho é bombeada por um sistema de pressão feito com uma garrafa pet. Um exemplo de que com atitudes inteligentes se pode aproveitar bem os recursos sem necessitar agredir fortemente o meio ambiente, mas o melhor de tudo é o sabor da cachaça, que recomendamos.

 

 

O passeio pelo parque da Serra tem que ser feito com guia e o valor é de R$70 pelo dia, por isso vale a pena acordar cedo e aproveitar bem enquanto é claro, pois tem muita coisa pra conhecer. O parque é incrível, esta época do ano as árvores começam a secar e vira um festival de cores de folhas marrons, avermelhadas, amareladas, esbranquiçadas, que dão um charme todo especial em meio às grutas, cânions e montanhas da serra.

 

 

 

Conhecemos os principais sítios arqueológicos, que são mais de 700, que contém inscrições rupestres de mais de 8 mil anos que deixam mensagens intrigantes e fazem a imaginação fantasiar milhões de hipóteses. São desenhos geométricos, cenas de sexo, parto, caça, rituais e até cena de beijo, muito romântico.

 

 

 

 

 

 

A estrutura do parque é excelente, acho que um dos parques mais legais que já visitamos. O parque tem muitos mocós, um tipo de roedor que se alimenta de casca de árvores e estão por todos os lados, uma gracinha de ver, seu xixi é oleoso, deixando rastros visíveis por onde passam. Eles costumam ficar imóveis quando passamos para parecerem camuflados. Suas fezes parecem uma resina e são muito educados, costumam acumular tudo em um “banheiro”, quando secam, ficam sólidas e duras, parece a semente de uma árvore, então se ver uma dessas sementes escuras, lembre-se que pode ser cocô de mocó, não é pra comer!

 

 

É possível ver diversos tipos de pássaros, cobras, sapos, aranhas e por sorte pudemos apreciar todos esses animais. Se tiver muita sorte talvez aviste uma onça, coisa que quem trabalha sozinho na manutenção do parque tem receio, pois ali é o habitat que varias onças e pumas, por isso ninguém dispensa um facão na mão para se garantir.

 

 

 

 

Existem várias trilhas para se apreciar o visual do parque, vale uma parada na pedra furada para apreciar mais uma escultura do senhor vento.

 

 

O parque também tem diversos macacos onde pesquisadores avaliam o comportamento social, por conviverem diariamente com observadores eles nem se importam com nossa presença.

 

 

 

Não deixe de olhar para os paredões da Serra e apreciar árvores no topo que tem suas raízes que descem até alcançar o chão, é a gameleira.

 

 

Estivemos também em uma caverna que foram encontrados fósseis de dinossauros, mas o divertido mesmo é procurar por aranhas, que mais parecem algum crustáceo esquisito, nas paredes. Elas ficam gigantes, com perninhas bem fininhas e compridas e possuem antenas enormes.

 

 

Outra parada pra se fazer na região é o Museu do Homem Americano, que possui um resumo explicativo do processo arqueológico e um pouco do que foi encontrado. Próximo dali tem o laboratório onde são identificados, estudados e catalogados todos os fósseis e artefatos arqueológicos encontrados no parque.

Parnaíba

Parnaíba

E no caminho para chegar lá:

 

 

 

Nos surpreendemos com a estrutura da cidade, ruas largas, avenida bem estruturada com diversos quiosques, uma cidade tranquila e com um centro colonial muito bonito com diversas casas coloridas, com muito artesanato e barzinhos que ficam bem animados com som ao vivo no fim do dia. À noite a cidade tem vida, as pessoas vão aos barzinhos, passeiam pelo calçadão e curtem a cidade.

 

 

 

 

O centro tem um mercado público de frutas e verduras muito bem estruturado, carnes frescas inclusive patos, porcos e frangos vivos prontos para o abate. Mas a surpresa mesmo veio durante a noite quando passamos pelo mercado, os vendedores haviam ido embora, mas deixavam todos os produtos ali no mercado que era aberto, seguros de que tudo estaria em ordem no outro dia, não esperávamos encontrar isso pelo Brasil, que bom saber que ainda existe. Melancias expostas nas calçadas esperando sozinha para serem vendidas no outro dia sem medo de serem raptadas por algum mal intencionado.

 

 

 

 

Outro lugar que também nos deixou surpresos foi a praia de Luis Correia com um mar cor turquesa, água quentinha, larga extensão de areia e boa estrutura para banhistas, estacionamento, calçadão com bares e diversos banheiros públicos com chuveirões, coisa que nós em Florianópolis desconhecemos, esse tipo de estrutura não existe em nenhuma praia de nossa ilha.

 

 

Na volta de Luis Correia tem um laguinho bem gostoso pra tomar um banho e curtir uma refeição.

 

 

No centro de Parnaíba encontramos um grupo de paulistas que também estão se aventurando de carro, eles estarão viajando por um ano e vão fazer a rota do Ushuaia até o Alaska, quem tiver interesse em conhecer um pouco desses aventureiros segue o site: http://www.4×1.com.br é muito bom encontrar, mesmo que por pouco tempo, pessoas com a mesma filosofia de vida.

Outra praia para se apreciar na região é a Praia do Sal, uma estrutura rústica, com alguns barzinhos. O farol divide a praia, de um lado o mar é tranquilo e vários barcos descem e sobem com a baixa e cheia da maré. Do outro lado praia com ondas, uma faixa de areia muito boa para caminhada, mas um detalhe bem diferente, apesar de não haver casas pela costa, existem diversos geradores de energia eólica.

 

 

 

 

Mas o passeio que realmente atraí os turistas é o Delta do Parnaíba, um passeio de barco que percorre todo o delta, mas que tem um preço um pouco salgado, por isso resolvemos conhecer fazer o passeio através de um plano alternativo e muito eficaz. Pegar o barco que a população local utiliza como transporte e conhecer uma das vilas de alguma ilha da região. Segundo os barqueiros, existiam vários barcos que vão e voltam da vila diariamente. Lá fomos nós a 15 km por hora, junto com os moradores do vilarejo, apreciando a paisagem do mangue, trocando sorrisos, vendo crianças durante a viagem caírem no sono no colo de suas mães, barcos de pesca em busca de seu ganha pão, e turistas passando em lanchas velozes que custam um fortuna. Infelizmente, quando chegamos, o barqueiro informou que não haveria mais barcos para retornar naquele dia, ficamos chateados, pois a informação quando pegamos o barco era bem diferente. Gentilmente, uma senhora que vivia na ilha ofereceu para ficarmos na sua casa caso não conseguíssemos barco, às vezes um “não” acontece para mostrar a humanidade que existe nas pessoas. E o desespero de ficar sem barco também nos proporcionou mais uma surpresa, foi pedindo informação para uma família de franceses que conhecemos pessoas super queridas e acabamos almoçando juntos e trocando um pouco de conhecimento. Por fim tudo terminou bem, conseguimos o barco para voltar, tivemos um dia agradável e ainda na saída a água do mar invadiu o mangue e, de doce de leite, ficou azulada tornando a paisagem ainda mais exuberante.

 

 

Barreirinhas

Barreirinhas

 

Pôr do sol nos Lençóis Maranhenses

 

Já que não foi possível conhecer a ilha de Lençóis resolvemos ir em direção a Barreirinhas, cidade que abriga uma das melhores maravilhas do Brasil, os Lençóis Maranhenses. Todos nos informaram que o acesso era realmente bem inapropriado para ir com carro próprio, aderimos então à versão turística com passeio de agências. Pela manhã fomos a um rio descer de bóia por aproximadamente uma hora, passeio tranquilíssimo, rio super calmo, água quentinha, mas não havia necessidade de ser feito pela agência, o caminho estava bom e a bóia era dispensável, mas já que fomos, curtimos. Pela tarde fomos aos lençóis, o caminho desta vez compensou ser feito pela agência dos Érics, administrada por seis irmãos, todos com nome de Éric, inclusive tinha até um Eric Clapton no meio. O caminho era de areia e realmente próprio para quem tem experiência no assunto, mesmo eles que estão acostumados dizem que diariamente alguém atola. Foi melhor não arriscarmos. Essa época do ano o nível da água nos lençóis estava bem baixo e algumas lagoas estavam completamente secas, mas ainda assim foi possível curtir nas pequenas lagoas em meio às dunas. Água quentinha e cristalina, as dunas eram bem fáceis de caminhar, pois eram bem compactas, isso nos deixou muito feliz, pois já tivemos experiências em dunas que parecíamos que íamos ter um ataque cardíaco. O visual da região é realmente incrível, pena os passeios de avião serem tão caros, mas quem foi, recomenda, porém para nós, sem condições de encarar, infelizmente esse tipo de turismo no Brasil é totalmente inacessível aos viajantes econômicos. Lá conhecemos um casal bem legal de Salvador e já aproveitamos várias dicas da cidade enquanto curtíamos o lindo pôr do sol nas dunas. Um paraíso tropical maravilhoso que dá aquela sensação de estarmos sonhando acordados, mas essa é a nossa realidade, ooooooo vida boa!

 

Hanna apresentando a laguna dos peixes

 

De Barreirinhas seguimos em direção a Parnaíba pelo interior, a estrada foi uma aventura deliciosa, estrada de terra barro e às vezes de areia, cruzava por pequenas comunidades perdidas no tempo, o engraçado é que mesmo muito simples, às vezes passávamos por casebres de palha e víamos diversas caixas de som enormes, as festas ali devem ecoar pra toda a vila. Passamos também por algumas vilas indígenas, com muitas crianças, todas peladinhas brincando pela rua, subindo em árvores e rindo à toa. De vez em quando o GPS, que está desatualizado, nos mandava por caminhos que não existiam mais, o que também se tornou bem divertido, pois íamos parar em lugares únicos, com laguinhos de água cristalina com uma vegetação exuberante, dava vontade de ficar por ali, mas não estávamos preparados com recursos suficientes para isso. Ficarão apenas a lembrança de um caminho de muitas belezas.

 

A nossa carona

 

 

 

 

São Luís

São Luís

 

Cai cai balão! É festa junina!

 

Para cortar caminho, resolvemos pegar a balsa para São Luís, isso nos economizou uns 350 km. Por sorte, a balsa estava bem animada com um grupo de dançarinos de Cururupu que iam fazer apresentações na capital e estavam com todo o pique, tocando, dançando e cantando. Já deu pra sentir uma prévia do que estaria por vir. Foi muita sorte chegar a São Luís bem nessa época quando se comemora uma das festas juninas mais bonitas do Brasil. Ao chegar à cidade, fomos em busca de camping, havíamos mandado vários pedidos de couchsurfing, porém ninguém estava disponível devido à época de festas. Pela dificuldade que tivemos para encontrar um camping, resolvemos ligar para um contato do couch pedindo auxílio. Foi aí que Gabriela, mesmo estando ocupada, nos recebeu em sua casa. Apesar da aparência de menina, que parece uma bonequinha, tem uma personalidade forte, a qual apreciamos muito, além de querida, divertida, batalhadora e super atenciosa. Conhecemos então um paraíso perdido na capital maranhense. Ela vive com a família em um sítio, acompanhada de uma matilha! Nos sentimos parte da família nesses dias que vivemos juntos. Sua mãe, Gladys, que mais parece sua irmã, diariamente nos preparava um delicioso café da manhã com cuscuz, do qual fiquei viciada. Lá vive também Juninho, Gabriele e Graziela, além dos sete cachorros: Escuridão (dobermann), Valente (rottwailer), Urso e Ursula (Akita), Menino e Menina (Labrador) e Pitbundinha (Pitt Bull). Será que falta segurança nesse sítio? Alguém se arrisca a entrar sem ser convidado? Conhecemos também o Albert, namorado de Gabriela, baterista da banda Ária. Não dava vontade de ir embora. No dia que estávamos de partida ajudamos a Gabriela a levar os cães no veterinário, como levamos a metade do dia para fazer isso, já tínhamos uma desculpa para fiarmos um dia a mais, hehe. A família toda é muito acolhedora, inteligente, agradável, amorosa e divertida. Agora se entende porque as pessoas do couch que a Gabriela hospeda sempre ficam um tempão.

 

Gabriele, Alex, Grazi, Gabi, Gladys, Albert e Julio na praia do Raposo

 

Na primeira noite, Albert e Gabriela nos levaram ao centro da cidade para participar da festa de São João. São tantas apresentações, tanta cor, músicas folclóricas, danças, vestimentas, alegria, comidas típicas, que ficamos em êxtase. Com o tempo fomos assimilando um pouco de cada grupo e seus diferentes ritmos, lá chamados de sotaque. Tem grupos mais tradicionais que seguem o enredo conhecido no Brasil inteiro, sobre o boi, mas existem diversos grupos que narram a história de forma simplificada através de diversos sotaques diferentes. Cada sotaque tem características próprias que se manifestam nas roupas, na escolha dos instrumentos, no tipo de cadência da música e nas coreografias. A mais divertida, e que chama a platéia para um tipo de transe é o sotaque de matraca, na qual todos que quiserem batem dois pedaços de pau (matraca) no ritmo da dança.

 

Festa Juninia – São Luís

 

Abusado!

 

Abusada!

 

Tivemos noites espetaculares, não imaginávamos o tamanho da devoção e dedicação deste povo para uma festa folclórica. Foi uma aula de alegria, dança, cultura, e por ai vai. Por isso resolvemos passar todas as noites curtindo um pouco desta festa fabulosa que se espalha por toda a cidade, foram quatro noites de pura alegria.

 

Pegação!

 

Boi da cara preta

 

Só na sacanagem

 

Saímos para conhecer o centro histórico, que de noite fica bem iluminado e estava cheio de bandeirinhas de festa junina. Grande parte do centro possuí os casarões coloniais bem conservados muitos, com o passar dos anos, tiveram sua fachada revestida com azulejos para melhor conservação. Estes azulejos possuem lindos desenhos e hoje se tornaram o símbolo da cidade. Durante o dia estão abertos alguns museus da cultura local e galerias de arte e artesanato que valem a visita.

 

Bandeirinhas no centro

 

Mercado no centro

 

A parte nobre e também turística da cidade possui lindas avenidas à beira mar, repletas de bares, restaurantes, lagunas e praias lindas com longa extensão de areia com campos de futebol e… IMPRÓPRIAS para banho. Fora da área nobre, a cidade é um queijo suíço, nunca vimos tantos buracos em uma cidade só, inclusive chegamos a ver um carro semi-tragado por um buracão. Prova de que coronelismo não ajuda em nada, não é família Sarney!?!

 

Praia de Calhau

 

Tivemos também a oportunidade de fazer um passeio com toda a família na praia da Raposa e almoçar junto um peixinho fresquinho com camarões. Para nós essa união familiar nos trás muito aconchego. A cidade de São Luís é muito linda para se visitar, mas o que realmente nos faz ter vontade de voltar é rever a Gabí e sua família. Desejamos-lhes toda a felicidade e booooraaaa visitar a gente lá em Floripa!

 

Julio e escuridão

Apicum Açu

Apicum Açu – Reentrâncias Maranhenses

 

Em busca de uma das regiões mais úmidas do mundo, seguimos em direção das reentrâncias maranhenses. Estas, formadas por extensas áreas de mangue com diversas aves aquáticas, sendo que possui um grande número de Guarás Vermelhos, ainda abriga tartarugas, peixes bois e crustáceos. Segundo os guias, o ponto para se conhecer esta região é a cidade de Cururupu, porém ao chegarmos lá, descobrimos que o ideal era ir até Apicum Açu, pois a estrada estava “ótima”. Quando consideramos um asfalto de má qualidade, brincamos que é um asfalto de “dois dedinhos”, foi quando então retiramos um pedaço do asfalto com a mão com facilidade e adivinhem… a espessura era de “um dedinho”. Asfalto novo, cheio de buracos, mais buracos mesmo, daqueles de engolir um carro. O Maranhão teve a pior estrada da viagem. Mais uma prova de que coronelismo não dá certo.

No caminho passamos por Bacuri, uma cidadezinha simpática onde descobrimos uma lanchonete deliciosa. Comemos várias coxinhas e tomamos o famoso guaraná Jesus, tão doce que parece chiclete de tuti-fruti e também provamos o suco de Bacuri, delicioso.  Quando chegamos em Apicum-Açu, fomos atrás do barqueiro responsável por fazer os passeios na região, ele não estava por lá e teríamos que aguardar o próximo dia para contactar-lo. O passeio que nos aconselharam a fazer era até a ilha de Lençóis, uma ilha de dunas com lagoas, muito parecida com a região dos lençóis maranhenses. A cidade era um pouco assustadora, as casas próximas ao porto ficavam em meio ao mangue, onde as pessoas jogavam o lixo pela janela e existiam banheiros igual à cena do filme “Quem quer ser um milionário”, lembra aquela parte que ele cai na merda? Igualzinho. Foi ai que decidimos tomar um banho… mas não ali, hehe, fomos na estação de combustível e resolvemos acampar no terreno da delegacia da cidade.

 

Essa é a paisagem do caminho!!

 

No dia seguinte encontramos um casal que também queria fazer o passeio e fomos em busca do barqueiro, ele nos informou que naquele dia não haveria saída e o custo do frete seria de R$500,00. Sem condições de pagar este valor optamos por um passeio alternativo, decidimos ir até a ilha da baleia com outra embarcação para passar o dia, foi aí que conhecemos um grupo de pescadores divertidíssimos, no caminho avistamos diversos guarás vermelhos e apreciamos o manguezal.

 

Guarás vermelhos fazendo um soninho depois do almoço

 

 

Pra pescar é fácil, quero ver fazer um churrasco!

 

Os barcos vão até essa ilha para aguardar a baixa e cheia da maré e aproveitam para fazer o almoço. Lá existe uma pequena vila com casas de palha em palafitas, uma comunidade muito pobre que vive da pesca de peixes e camarões.  Não existe nenhum comércio, bar ou restaurante. Os barcos ficam ali esperando a maré baixar até que a água desaparece por completo o mar vira terra, milhares de caranguejos emergem e guarás vermelhos aparecem um busca de comida. Os pescadores nos prepararam um delicioso peixe, mas eles comeram frango, foi durante o almoço que vimos eles agradecerem a Deus pela comida e pedir que suas famílias também tivesse em casa a mesma fartura. Ao redor dos barcos ficam uma dúzia de cachorros magros e famintos em busca de migalhas que todos os barcos fazem questão de deixar pra eles. Brincamos com o cozinheiro que logo apelidamos de Maria, enquanto a maré não sobe, eles aproveitam para organizar as redes, limpar o casco dos barcos e jogar muita conversa fora. Para voltar pegamos um outro barco e ao tentar pagar pela viagem e o almoço, descobrimos mais uma vez que existem pessoas realmente boas nesse mundo, eles não aceitaram e com muita insistência conseguimos deixar um troco para que eles pudessem pagar a cachaça da festa junina. É surpreendente ver pessoas que tem muito pouco compartilharem o que tem. Esses são ensinamentos que não se aprende na escola!

 

 

Os cachorros esperando a comidinha

 

A galera do barco! O dono do barco, Deco, a Maria (Claudio), o Joelinton e o Carlos.

 

Os pássaros apreciando a maré baixa e comendo até explodirem

Mosqueiros e Salinópolis

Ilha de Mosqueiros e Salinópolis

Saímos de Belém em direção a Salinópolis, mas antes resolvemos fazer uma parada em Mosqueiros para conhecer um pouco de praia de rio. Após muita procura conseguimos um local para acampar, um camping que custava um pouco caro pela estrutura que oferecia, depois de muita negociação conseguimos baixar o preço e resolvemos ficar por ali mesmo. Saímos para conhecer as praias e quando voltamos a dona do camping nos informa que teria uma cabana que poderíamos ficar pelo mesmo preço, falamos que não era necessário, mas ela insistiu. A “cabana” era infestada de teias de aranha, muitos mosquitos e formigas, coisa que não nos preocupamos em nossa barraca, sem contar que durante a noite ratos apareciam andando sobre os estrados do telhado. À noite sentimos algumas picadas que não sabíamos se eram mosquitos ou percevejos, mas estas são pequenas dificuldades que enfrentamos perto da gentileza de pessoas muito simples e amáveis.

 

Uma das praias de Mosqueiros

 

As praias não são lá muito atraentes, a água era salobra cor de doce de leite, mas possuem uma bela estrutura de calçadões com diversos barzinhos e os casarões coloniais antigos estilo holandês dão um charme todo especial a região.

 

Casarão holandes

 

Lá curtimos pela primeira vez uma festa junina, bem pequena, mas bem animada, o interessante foi a comida típica da festa, os pratos mais servidos eram, além da clássica canjica, lasanhas e arroz com frango e para animar a festa, três cervejas por R$ 5,00. Na região se encontra muitos caranguejos e camarões secos alem de carne seca que eles sabem preparar muito bem.

 

Olha quem tá pegando carona! Próxima parada, panela! OOOPs

 

Hmmmmmmmmmm camarão seco!

 

Seguimos para Salinópolis em busca de camping, chegando lá rodamos por toda praia e nada de camping foi quando, de repente, ao parar para pedir informação sobre locais para acampar conhecemos Edson que nos convidou a ficar em sua casa e aproveitar para curtir uma prainha. Foi ai que conhecemos sua esposa Socorro, seu irmão Renato e a esposa Dena, sua sobrinha Glaucia e seu marido Leonel. Que família maravilhosa que nos recebeu de braços abertos. Fomos com eles à praia do farol velho, linda e com água super quentinha, uma delícia, ficamos ali conversando com aquelas pessoas divertidas e com uma história de vida muito desafiadora. Edson e seu irmão cuidam muito da saúde, pois eles têm problemas renais sérios, um já fez transplante e o outro ainda está direto na hemodiálise, depois fomos descobrir que ali na região casos como esse é mais comum do que se imagina. Conviver um pouco com essa família alegre foi uma lição de vida. Há pouco tempo Socorro e Edson tiveram um grande susto, seu filho sofreu um assalto no qual levou vários tiros sendo que um pegou em cheio na cabeça, que o deixou hospitalizado entre a vida e a morte e ainda acordou sem se recordar de nada, com o tempo foi mellhorando, hoje está a quase 100%, mas foi uma luta muito grande pra eles. Infelizmente histórias como essa não são raras de se ouvir no Brasil. Pela alegria e união que a família vive fica difícil de imaginar que passaram por tantos desafios. Eles nos ofereceram um delicioso café com tapioca, tivemos oportunidade de ficar pouco tempo juntos, mas esperamos poder recebê-los em Florianópolis e compartilhar mais momentos agradáveis como esse.

 

Todos juntos na casa de Edson

 

Eles nos indicaram alguns lugares para ir, pela manhã fomos experimentar o delicioso café da manhã no mercado central de Salinópolis com tapioca e cuscuz com leite de coco. Depois fomos à praia do Maçarico, onde fizemos uma gostosa caminhada em meio a uma grande faixa de areia e pequenas piscinas naturais devido à baixa da maré. Adoramos esta paisagem deserta, pois as únicas pessoas que haviam por lá era um casal que avistamos de longe que deixaram uma barra de sabão de coco e uma garrafa vazia de cachaça. O que eles faziam? Valendo um prêmio para a resposta mais criativa! O ganhador receberá a metade que sobrou do sabão!

 

Praia do Maçarico, Salinópolis – Pará

 

Praia do Maçarico

 

A praia do Atalaia é famosa por ter uma extensa faixa de areia, onde é possível passar de carro por diversos quilômetros. Para os desatentos, cuidado! Não é incomum carros serem levados pela maré, pois ela sobe rapidamente… rapidamente mesmo! Se ficar tomando caipirinha e se esquecer, katiploft… e lá se vai o carro. Lá tem vários restaurantes, no estilo palafitas. Nós não achamos atraente praia com automóveis, o que é comum ali.

 

Praia do Atalaia

 

Para quem gosta de sossego, uma praia legal e muito mais tranquila é a praia do farol velho. Lá, ninguém vai encontrar o tal farol, pelo menos não inteiro! A estrutura enorme de pedra foi arrastada pela maré, e só restaram ruínas.

 

Praia do Farol Velho

 

Adoramos ter curtido a região e foi o nosso primeiro torrão pelo litoral brasileiro.

Belém

Belém, 13 a 16 de junho de 2012

 

Resolvemos ir a Belém de avião, que leva em torno de 3 horas, porém existem barcos que fazem esse transporte, que levam em torno de 7 a 10 dias e que custam o mesmo valor da passagem aérea. Este, porém, é um passeio para pessoas tranquilas, caseiras, que conseguem ficar dias em um espaço limitado, a idéia deste passeio me dava calafrios, não consigo ficar um dia inteiro dentro de casa, imagina 10 dentro de um barco, eu acho que ia me jogar com as piranhas. Despachamos nosso carro por uma transportadora em direção a Belém. Existem muitas empresas que fazem esse transporte, porém existem muitas pessoas que vão te alertar com relação a esse transporte, não são raras as histórias de carros que nunca chegam, ou então são mexidos no meio do caminho, tem seus estepes roubados, estão arranhados, mechem na sua bagagem, ouvimos historias até de balsas que encalharam e para salvar a balsa derrubaram todos os carros no rio, está pior que história de pescador. Depois de muita procura encontramos uma transportadora séria, que coloca o carro em uma cegonheira, tem seguro, site, nota fiscal e só cobra quando você recebe o carro, e o mais importante, cobrou o mesmo valor que transportadoras um tanto quanto suspeitas. Para quem tiver interesse de fazer essa travessia indicamos a transportadora Goiás, a viagem leva em torno de sete dias e eles realmente são muito profissionais.

A cidade de Belém tem seu charme e problemas como outras cidades do Brasil, cheiro de esgoto e muito, muito lixo. E não é por falta de coleta, é o povo que não tem consciência mesmo.

Desfocando dos defeitos, sua culinária tradicional é incrível, não deixe de provar o pato no tucupi, um caldo feito com a raiz da mandioca brava, que dá uma certa dormência na língua e é saborosíssimo, também fazem frango no tucupi, peixe no tucupi, porco no tucupi e até tucupi com camarões secos (Tacaca), mas o pato é o prato imperdível. Outra comida clássica da cidade é a maniçoba, é preparado com a folha da macaxeira, cozido por vários dias, alguns lugares por ate 10 dias, acredita? Esse preparo tem que ser muito cauteloso, pois se não está devidamente cozido, torna-se um prato tóxico. São acrescentados a este prato diversas carnes e temperos como se faz na feijoada. A aparência é de bosta de cavalo, bem verdinha, molinha e quentinha, mas não se engane, o sabor é delicioso. Hoje vejo uma bosta de cavalo e penso na maniçoba. Sabe quando você prova algo que você nunca mais encontra e ninguém sabe o que é? Foi em Belém que experimentei pupunha, um tipo de um coquinho que se cozinha e parece uma batatinha com sabor de milho, uma delicia que quero ter a oportunidade de encontrar novamente, alguém conhece?

Pato no tucupi! Uma das iguarias do norte.

O centro, conhecido como cidade velha, tem vários edifícios históricos com azulejos de estilo português e está dominada por mangueiras que em época de frutos aterrorizam os carros e pedestres, mas são elas que dão as agradáveis sombras nas praças e avenidas da cidade, se não cair uma manga na sua cabeça você terá a sorte de provar essas deliciosas frutas direto do pé e bem docinhas, nada como um lanchinho de graça. Importante ter em mãos um guarda chuva, pois a chuva é diária, dizem que existe em Belém a estação de chuva e a estação de mais chuva. O bom é que nos dias que estivemos por lá a chuva era pontual, as 16:00 ela começava, então tínhamos até esse horário para curtir tranquilos. O bom da chuva é que dá uma refrescada na cidade que é muito quente. Vale uma vista na casa das onze janelas, um casarão de um rico senhor de engenho construiu no século XVIII e hoje pertence ao governo do estado, foi revitalizado para receber eventos culturais e exposições, tem também um restaurante elitizado que obvio não fomos. Próximo dali tem um barco da Marinha Brasileira que está desativado e é um museu para visitação. Tem também o Forte do Castelo que abriga um museu que conta a historia de Belém e da colonização portuguesa.

 

Hanna pronta para explodir mais uma civilização

 

Julio no forte

 

Um dos passeios que mais gostamos foi o Museu Paraense Emilio Goeldi, um parque agradável com varias trilhas em meio a natureza, laguinhos com vitórias regias, árvores enormes e zoo bem cuidado.

 

Talalugas no parque Emilio Goeldi

 

Vitória régia no parque Emilio Goeldi

 

A rainha das plantas!

 

Encontramos Yggdrasil, no meio de Belém!

 

Um passeio delicioso pela cidade é a estação as docas, uma área portuária que foi revitalizada e transformada em pólo gastronômico e cultural. Os preços são caros, mas vale uma visita, é um ótimo local para curtir o entardecer. Lá tem varias lojinhas de artesanato local, cosméticos e chocolates típicos da Amazônia e também a cervejaria Amazon Beer, produzida no próprio bar dentro das docas, barris gigantes de dar brilho nos olhos de quem gosta.

 

Hanna na frente das docas em Belém do Pará

 

Choppzinho, alguém tá afim?

 

Adoramos mercados públicos, sentir o cheiro da diversidade e experimentar frutos diferentes. Eu sou uma pessoa que adoro até o cheiro de peixe fresco, me divirto limpando, brincando com as entranhas, verificando os dentinhos, as guelras, enfim estávamos ansiosos para conhecer o mercado ver-o-peso, um dos mercados mais famosos do Brasil. Infelizmente o mercado fede muito pela grande quantidade de lixos orgânicos e peixes podres, nós não fomos nem o primeiro nem o último turista que não conseguiu ficar por lá apreciando por causa do mau cheiro. Muitos dos turistas que conversamos tiveram o mesmo asco, menos mal pra nossa cara, mas muito feio para a cidade. Este merece um banho de água sanitária.

 

Lugar mais sujo que passamos na viagem, ao lado do mercado Ver-o-Peso.

 

Mercado Ver-o-Peso, construção inglesa em estrutura de ferro.

 

Não podíamos também deixar de conhecer o maravilhoso Teatro da Paz com estilo neo-gótico e aproveitamos para assistir uma Orquestra Sinfônica montada especialmente para o Festival Internacional de Música, com músicos convidados de diversos países e duas sopranos maravilhosas. A entrada era gratuita e ficamos sempre muito felizes com inclusão cultural para todos, parabéns aos incentivadores.