Carretera Austral – Parte 2

Carretera Austral, 24 de novembro a 11 de dezembro de 2011.

Reserva Nacional Cerro Castillo

Paramos no camping da reserva e o guarda florestal nos comentou sobre o passeio dentro da reserva, uma trilha de 40 km, onde tem várias paradas para camping. Perguntei o que mais me interessa, se tinha chuveiro, ele disse que não. Mesmo assim vi o brilho no olhar do Julio e dos polacos com o sentimento claro de que iríamos nos aventurar. Dormi torcendo para que chovesse, quem sabe eles mudariam de idéia. Só piorei a situação, pois mesmo chovendo, todos acordaram empolgados arrumando as malas e eu interrogando o guarda para saber mais detalhes sobre esta pequena caminhada. O “amável” guarda me tranquilizou dizendo que era um caminho tranquilo, que não era 40 km, mas sim 26 km, e o caminho era quase todo plano. Ok, coloquei uma bota velha de guerra, prestes a alcançar os seus últimos dias de glória antes de seu enterro, uma mochila com o mínimo de coisas possíveis, pois meu joelho já estava dolorido fazia alguns dias, joguei o peso das comidas pro Julio… óbvio.

Pegamos os horrorosos mapas com a rota da trilha e começamos, junto com a agradável chuva. Primeiras dificuldades, rios, não é qualquer rio caros amigos, mas sim rios de descongelamento das gelereiras, e ponte… hauhaua… quem dera! É levantar a calça, tirar sapatos e encarar um $%*# frio que parece que estão enfiando agulhas no teu pé, as pedrinhas doem pra dedeu. Ok, a gente sobrevive! Mas para nossa alegria tínhamos mais alguns outros rios pela frente. Minha bota já estava encharcada pela chuva, nem isso para esquentar o meu pé após os rios. Mas faz parte, depois de 13 km chegamos ao primeiro camping, fizemos uma fogueira e esquentamos os pés.

Depois do primeiro acampamento

Hanna em meio as montanhas

Começo da subida!

Segundo dia, a trilha começou a tomar um rumo estranho, era apenas subida, mas para onde estávamos subindo? Comecei a xingar o guarda de todos os nomes não amigáveis que me vinham à mente, era para ser um caminho tranquilo, mas as subidas começaram a ficar mais íngremes e, de repente, estávamos andando pela neve, que linda neve!

Na metade da primeira subida mais forte!

Hanna ainda feliza com a neve.

Lindo nos primeiro 100 m de subida, depois que a gente afunda o pé, entra neve dentro do sapato e você percebe que seus dedos começam a ficar dormentes, a beleza se transforma num verdadeiro inferno.

Hanna e o inferno gelado!

De vez em quando, para melhorar, o pé afunda até encontrar um riozinho de água de desgelo logo abaixo de você. Mas aí você continua, quase desistindo, chorando, xingando e pensando, pra baixo todo santo ajuda.

Hanna do outro lado da primeira montanha!

Do outro lado da montanha… Cacilda…  íngreme e com muito cuidado para não descer de esqui bunda e terminar se estoporando nas pedras. Na descida encontramos um casal de chilenos, eles adoram montanhismo, mas eles tem equipamentos adequados para tal, estavam com todos os aparatos necessários, muito diferente de nós que estávamos espremendo as meias. Para nossa surpresa, terminamos os 26 km, mas a trilha não terminou, ainda tínhamos mais 15 km. *&¨%$#@ do guarda. Mais uma noite secando os pés e ficava lá hipnotizada pelo fogo, esperando a água esquentar para tomar um banho de canequinha naquele climinha fresco, lembrando que íamos dormir na nossa minúscula barraca e quando digo minúscula, é por que a nossa barraca parece um caixão, o teto quase encosta na nossa cara. E sentindo dores por todo o corpo, o joelho latejando, os ombros quentes, parece que em dois dias envelheci uns 50 anos. Pelo menos estava feliz, pois era o último dia, mas ao mesmo tempo assustada, pensando o que mais teríamos pela frente.

Começo da segunda subida!

Terceiro dia. Sabia que teríamos um lago, mas quando chegamos próximo do lago que ficava em meio a montanhas bateu um desespero, comecei a chorar quando vi que teríamos uma montanha enorme para subir. O choro de repente se transformou em um acesso de raiva e essa raiva me deixou louca e soltei um berro muito alto no meio do vale e comecei a subir como louca, em linha reta, sem olhar pra trilha ou fazer zigue zague, comecei a saltitar sobre as pedras como uma insana, retardada, parecia que dava pra sentir os genes de meus antepassados primatas, todos ficaram para traz. Claro que nesse momento dei varias topadas, mas isso meu pé só foi sentir momentos depois. Conclusão: raiva é um ótimo combustível. Óbvio, não esquecendo sempre de xingar o guardinha. Eis que finalmente chegamos ao cume, todos animados com a conquista, olhava para os retardados que estavam lá em cima com uma sensação de satisfação e pensava, por que eu não sentia isso! Hmmm, será por que estou me sentindo suja, cansada, com frio, irritada? Talvez. Pelo menos vimos condores voando, um momento de paz e apreciação.

Lago com a água mais pura do mundo!!! Direto do glaciar!

Cume! Muito frio!!!

Com a bandeira da Patagonia!

Um pouquinho do Brasil!

Hora de descer, o problema agora era encontrar uma trilha de descida, era uma descida íngreme e de cascalhos, mais ou menos uns 2000 m de altitude. Dava pra surfar sobre os cascalhos. Durante toda a trilha a sinalização que indicava os caminhos era péssima, e nessa descida a situação piorou ainda mais, perdemos muito tempo buscando sinais de direção, já que o mapa não ajudava muito.

Começo da descida.

Depois de muitos tombos, escorregões, a mão ralada, terminamos a parte dos cascalhos, aí facilitou muito! Começou a descida por terra, estávamos muito cansados, já estávamos caminhando a umas 8 horas seguidas sem parada pra lanche, mas tínhamos que continuar. Os polacos que sempre estavam pra trás aceleram o passo nos últimos km. Quando terminamos a trilha tínhamos somente 6 km até chegar a vila para conseguir pegar um ônibus até o camping da reserva onde deixamos o carro. 6 km? Pareceu 56 km pra mim. Pedi pro Julio pra acampar por ali porque não dava mais, as coxas tremendo, o joelho latejando, os olhos irritados… Não dá mais!!! Eis que aparece um carro!!! Pensamos: “nossa salvação”. Cheio de bêbados malucos. Pelo menos fomos até a vila… com medo, mas fomos. Da vila até a reserva eram uns 26 km e chegamos às 11 da noite, tentamos pedir carona, eis que chegam os polacos com um chileno típico gaúcho, ele disse que poderíamos ficar na casa dele que teria espaço para todos. Sem palavras para dizer o quão querido o Carlos foi, nos preparou a janta e nos ofereceu a casa dele pra ficar. No outro dia pegamos carona com mais um chileno que dirigia loucamente, cortando as curvas. Tá louco meu! Mas chegamos vivos. Finalmente!!!!!!!

Vista de baixo!

Bahia Murta

Infelizmente nos desencontramos com os polacos e seguimos para Bahia Murta. Lá resolvemos ficar dois dias para nos recuperarmos. Meu joelho estava inchado como uma bola, parecíamos dois velhos! Conversamos com Silvia, uma simpática senhora que aluga cabanas na região, ficamos numa cabana muito simples, porém aconchegante.. Se tivéssemos mais tempo com certeza ficaríamos vários dias a mais. Todas as manhãs Silvia prepara pães caseiros no fogão a lenha, estes pães quentinhos com uma manteguinha com certeza foi uma das melhores comidas da viagem, se bem que a janta que ela nos preparou foi simplesmente uma delicia. Claro que ficamos mais um dia.

Puerto Rio Tranquilo

Pegamos um pequeno barco em Puerto Rio Tranquilo e fomos em direção às grutas de mármore que são diversas grutas que parecem ter sido talhadas à mão, mas isso foi obra da natureza que combinou blocos claros de mármore, uma lagoa incrivelmente azul e vento para esculpir durante anos esse maravilhoso cenário.

Chegando ao Lago General Carrera

O barco entrou em várias grutas, para que pudéssemos tirar fotos, tocar no mármore. Entre as grutas estão a catedral e a capela, onde você salta do barco e fica ilhado.

Um pilarzinho da gruta!

The everwatchfull eye!!

Capela de mármore! E a água azulzinha!

Hanna e as grutas de mármore.

Na volta o vento ficou forte e as ondas na lagoa também ficaram. A viagem que na ida foi muito rápido, na volta pareceu levar uma eternidade. O barco teve que ir muito devagar, pois haviam muitas ondas e com somente em 4 pessoas à bordo não havia peso o suficiente para dar estabilidade, tivemos que sentar no chão do barco para que ele não quicasse tanto sobre as ondas, que de vez em quando nos molhavam. Por fim chegamos vivos e felizes.

...

 

Cochrane: fim da Carretera Austral.
Estávamos ansiosos para chegar a Cochrane, finalmente contato com civilização, mas Cochrane é uma cidadezinha tão pequena que não nos animou muito. O banco não aceitava nenhum de nossos cartões, o dinheiro estava no fim e tivemos que pensar no término da carretera. No banco conhecemos um italiano muito louco que junto com o amigo estão tentando bater um novo recorde. Eles estão viajando com duas motos 50 cilindradas e vão fazer do Ushuaia até o Alasca. A bagagem deles é menor que minha frasqueira. A moto só cabe 7 litros de combustível, não tenho a mínima idéia de como eles vão fazer essa loucura, mas vamos ficar acompanhando.

Aproveitamos nossos últimos dias da carretera para conhecer nossa última cidade da rota, Caleta Tortel, que fica à beira de um lago coberto de montanhas. Na cidade só se circula a pé, pois os caminhos são decks de madeira interligados por muitas escadarias, pois a cidade foi totalmente construída nas encostas das montanhas, dando um charme todo especial ao local.

Caleta Tortel

Os decks percorrem a cidade inteira!

 

Saímos do Chile em direção à famosa ruta 40 na Argentina através de Passo Roballos. A vegetação começa a ficar mais rasteira, árida e as montanhas mais baixas.

 

Paso Roballos

 

Podemos observar muitos grupos de guanacos e tivemos a sorte de cruzar com uma pequena raposinha que fez questão de parar e pousar para foto, ficamos ali alguns segundos nos entreolhando, até seguir nossos rumos.

 

Familia de guanacos

 

Zorro

 

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Carretera Austral – Parte 1

Carretera Austral, 24 de novembro a 02 de dezembro de 2011.

Futaleufú

Entramos no Chile por Futaleufú. Nossa primeira comunicação com chileno:

Julio pergunta: “por favor, o Sr sabe onde tem um banco por aqui”?

Chileno responde: “primeiramente, bom dia, é assim que nos comunicamos por aqui, sim, na próxima rua tem um banco”.

Adoramos!

Ficamos esta noite em uma reserva nacional que fica logo após a fronteira. No caminho a estrada que é para um carro só fica cada vez mais estreita e, de repente, estamos com o carro à beira de um penhasco enorme com um lindo rio esverdeado e sem ter a mínima idéia para onde essa estradinha ia dar. Eu me desesperei, para voltar é impossível, não tem por aonde, se vier um carro à frente, ferrou, vamos continuar e torcer pra tudo dar certo.

Penhasquinho!

Hanna e o medo!

Conseguimos sair da estradinha e encontramos um “camping” no caminho, era um terreno com uma cabaninha aberta com um fogão à lenha no meio… perfeito para passar uma noite fria! Mas estava tão frio e chuvoso que dormimos no carro. Descobrimos que a barraca é um milhão de vezes mais aconchegante.

La Junta

Paramos para pedir informacões e descobrimos um camping com uma piscina natural de águas termais. Como chegamos ao anoitecer e estava frio, o Julio e o Kris foram os únicos que se arriscaram a cair na piscina. Quando eu e a Magda chegamos para fazer companhia a eles, começamos a escutar a conversa obscena. Ouvíamos gemidos, algo sobre o buraco está ali, coloca mais pro meio, hummmm, está muito bom, assim, perfeito. Ficamos assustadas, mas eles estavam se referindo apenas sobre um cano que saia água quente e queriam colocar a água para próximo deles. Passamos o dia seguinte cozinhando na piscina, no fim do dia resolvemos seguir viajem, pois chegou um batalhão de crianças para transformar as águas termais em águas quentes douradas.

Puerto Raúl Marín Bamaceda

Resolvermos seguir para o litoral e colocar nossos pés no oceano pacífico. No caminho já foi possível perceber uma mudança forte na vegetação, começaram a aparecer folhagens enormes, comuns em florestas tropicais.

Hanna dando um look geral

Para chegar ao povoado de mais ou menos 60 casas é necessário pegar uma balsa.

Carro dos polacos e a Ranger na balsa

A vila é muito simples, mas bem aconchegante. Na praia é constante a aparição de toninhas, são como golfinhos, mas um pouco menores. A areia é escura e tem muitos troncos e galhos na areia. Durante todo o tempo que ficamos lá tivemos a companhia de um cachorro muito divertido, com pelo comprido, mas era puramente dread locks, apelidamos ele de Rasta! Deu uma dó deixá-lo por lá.

Rasta, o cão de Jah!

Conversamos com os policiais e eles falaram que lá não tem muito o que fazer, bom pra eles, não tem roubo, nem assassinato, deve ser difícil trabalhar assim. Eles nos ensinaram a pescar com a técnica que se usa na região. É um pedaço de cano com linha e um toco de madeira para segurar. Nós como pescadores somos ótimos viajantes. A região tem uma planta que é considerado uma praga, mas para nós é uma maravilha, estava repleto de flores amarelas.

Vegetação nativa!

Resolvemos explorar novos caminhos e atolamos duas vezes. Voltamos pra caminhos conhecidos. Lá acampamos na praia mesmo, mas praia de rio, pois tem menos vento.

Os marujos

A árvore somos nozes...

A bixinha em algum lugar nos arredores de La Junta

Puyuhapi

Quando estávamos bem próximos da cidade, o carro de nossos companheiros polacos rompeu a estrutura inferior e passamos o dia no mecânico. Ninguém tinha dinheiro para pagar, pois durante toda viagem não encontramos caixas eletrônicos, aviso para quem vai fazer a carreteira, tragam a quantia necessária para todo o trajeto da carreteira, pois banco aqui é raridade. O mecânico foi tão querido que passou o número da conta para os polacos depositarem quando estiverem de Coyhaique. Uma característica que lemos nos guias e muitos comentaram, em geral o chileno é um povo muito honesto e honra com seus compromissos. Isso se percebe quando qualquer coisa que compramos, ou até mesmo um camping, eles nos dão nota fiscal. Aproveitamos para subir ao mirante da cidade e apreciar aquele pequeno vilarejo em meio às montanhas.

Entrada de Puyuhuapi, e pra quem tem bons olhos... a Hanna ali na janelinha

Encontramos um ônibus hotel bem interessante que faz a carreteira austral, estava cheio de alemães. Naquela noite acampamos próximo deles, mas os poloneses não queriam se misturar, então não tivemos contato com o grupo, que pareciam estar se divertindo muito. Contextos históricos explicam. Ainda bem que nós brasileiros não temos esse problemas.

Coyahique

A caminho de Coyhaique passamos pelo Parque Nacional Queulat, foi o clímax da viagem, era tudo muito lindo, muitas flores, montanhas, rios com águas cristalinas e campos verdes. Parávamos a cada km para tirar algumas fotos.

A bixinha no meio das montanhas

Vales verdes... verdes vales

...

...

Flores e montanhas!

Foi engraçado, estávamos tirando fotos de um campo de flores no meio das montanhas e comentando que para ficar cenário de sonho só faltava passar um rio pelo meio.

Só faltava o rio!!!!

...

Tinha até ponte!

Ficamos bobos com tamanha beleza. Chamamos de cenário puzzle, igual os que vem em quebra cabeças. Próximo da cidade o cenário já muda totalmente, fica mais seco e com muitas montanhas cobertas de pedras.

Coyhaique, de bem longe!

Enfim um pouco de civilização. A cidade, apesar de pequena, é muito bem estruturada. É a maior cidade da rota e deve ter aproximadamente 50 mil habitantes. A praça tem wi-fi para a população, chique né? Isso nos lembrou de um candidato a presidente na argentina que estava usando o slogan “internet free para todos”. Agora, o que nos impressionou foi o supermercado, nunca havia visto um supermercado com tantas variedades de produtos e com qualidade. Os preços melhores que os da Argentina, Brasil e até mesmo Polônia. O Julio quase chorou no setor de cerveja, tinha cerveja do mundo inteiro, coleção para dar inveja a qualquer colecionador. As cervejas mais baratas daqui já são de altíssimo nível. Para quem é celíaco, tinha seções enormes com muitas novidades, tenho conhecidos que iam se sentir honrados. Claro que fizemos a maior compra de toda viagem, enchemos o carrinho e deu apenas 200 reais, incluindo rum cubano, vodka russa e muita comida.

Vamos deixar umas fotinhos da saída da cidade…

Los Alerces

Parque Nacional Los Alerces, 22 e 23 de novembro de 2011.

Fomos de Puerto Madryn até Esquel, atravessamos a argentina em uma linha horizontal. No caminho paramos em Ameghini, uma represa que tem parque e um visual bem interessante para apreciar. O caminho desta rota lembra muito a região seca dos Andes, deserto, muitos rochedos e pequenas vilas no caminho.

 

Represa de Ameghini

 

Chegamos a Esquel, cidade das fábricas de chocolate e morros de esqui, fizemos uma parada rápida para provisões e seguimos para Parque Nacional Los Alerces. Avistamos os primeiros picos nevados. Visual impressionante, lago, montanhas, pinheiros, muitas flores roxas, rosas, amarelas, brancas, cascatas, rios e… frio, pelo menos pra quem esta acampando, cardápio da janta: Sopa quente.

 

A vista do nosso camping... eeeee vida boa

 

Em algum lugar nas montanhas

 

Nós com a bixinha e carro dos polacos

 

Hanna brincando de macaquinha

 

Nós entre as flores em Los Alerces

 

Montanhas, lago, flores e o amor!

Península Valdés e Puerto Madryn

Península Valdés, 16 a 18 de novembro de 2011.

Finalmente seguindo viajem. Já estávamos ansiosos. Como eram muitos kilometros até a península, paramos no camping municipal de Bahia Blanca. Uma estrutura maravilhosa para a população veranear, com um piscinão gigante, várias churrasqueiras e um simpático guarda que nos mostrou toda a estrutura, como funciona o processo para encher a piscina com água do poço e se falta água eles completam com água do mar. O nome desta cidade a beira mar se dá por causa das salinas que cobrem a areia que é meio lodosa, deixando uma camada branquinha. Durante a noite pode se ver as chamas das chaminés das indústrias petroquímicas que ficam na beira da Bahia. Não é uma das praias charmosas para se visitar.

A península é uma reserva onde você pode ver elefantes marinhos, baleias, golfinhos, pinguins, lhamas, tatus, entre outros, A entrada é paga, aprox. R$35,00 por pessoa, lá tem uma pequena vila com estrutura de camping e pousadas. Fomos até Punta Pardales onde finalmente encontramos os poloneses Kris e Magdalena, você lembra aqueles que havíamos encontrado no Uruguai. Era noite e não podíamos ver muita coisa, lá não tem nenhuma estrutura, apenas praia e nós. Queríamos ir até o mar, mas a Magda me alertou, ali não é uma prainha, isso é um rochedo que cai direto no mar e é fundo, fomos à noite à beira das rochas e a sensação era assustadora, escuro total e o barulho dos esguichos das baleias que estavam muito próximas, mas não podíamos ver, só escutá-las no meio da escuridão, estava ansiosa para vê-las durante o dia. Dormi muito tensa, pensando se a água do mar iria subir, pois acampamos na beira dos rochedos e próximos à praia e, ao que tudo indicava, a água chegava até ali. Não chegou, é claro, mas foi bem próximo.

 

Costão e mar! Uma bela queda na praia de Punta Pardales

 

Acordei muito cedo para ver as baleias. Fui para beira dos rochedos, escutava, mas olhava para o horizonte e não avistava nada, de repente olhei para baixo e elas, mãe e filha estavam ali a poucos metros de mim, descansando, se não fosse o brilho do sol que estava muito intenso com certeza poderia vê-las com muito mais clareza, mas cada vez que elas emergiam era uma emoção. Acho incrível como em poucos segundo, ali sozinha naquela calma, apreciando tamanha beleza da natureza, de repente surgem grupos de turistas em bando com suas câmeras, de onde eles saem assim tão rápido?

 

Sorriso da baleia em Punta Pardales

 

Hanna e a baleia

 

Durante o dia a Punta Pardales é um lugar de outro mundo, parece que estamos andando na lua. Não tem areia, só um chão de sei lá o que branco, com craterinhas arredondadas e, de repente, um penhascão com água do mar azul esverdeada, porém cristalina. Dá pra ver alguns metros abaixo da água, tudo muito lindo.

 

Hanna em Punta Pardales

 

Aproveitamos o dia para ir a outros lugares da península, visitamos lagos secos de sal, praias com pingüins de Magalhães, são tão fofos, fazem toquinhas nos costões de areia para colocar seus ovos, é incrível como eles sobem rápido pelos costões com suas pequenas patinhas.

 

Salina de Península Valdés

 

Pinguins de Magalhães

 

Vimos elefantes marinhos enormes tomando banho de sol, e de repente aparecem as orcas, muito próximos da beira em busca de algum elefante marinho para o almoço, mas não tivemos a oportunidade de assistir nenhum ataque desses exímios caçadores, acho que já estavam bem alimentados, queriam só fazer presença. Nas empoeiradas estradas da península, muito cuidado, é muito comum que lhamas cruzem na frente do carro. Enquanto você cozinha, graciosos tatus te rodeiam em busca de comida, mal sabem eles que pra muitos eles dariam uma deliciosa refeição.

 

Elefante marinho, morgado na praia

 

A orca na espreita

 

No fim do dia voltamos para Punta Pardales e ficamos apreciando um pouco mais das graciosas baleias saltando ao mar. O dia seguinte estava ensolarado, a maré estava alta e os rochedos entrecortados se transformavam em lindas piscinas para banho. Banho frio, muito frio, mas o Julio se arriscou a dar uns mergulhinhos. Claro que ninguém se arrisca a nadar diretamente no oceano junto com as baleias.

 

Julio dando um mergulhinho na água gelada!

 

Kris e Magda foram fazer um passeio de barco e retornaram com um casal de húngaros, Timi e Gogu, eles estão viajando de lua de mel pela argentina e resolveram passar a noite conosco em Puerto Madryn.

 

Galera junta: Julio, Magda, Kris, Timi e Gogu. A Hanna está detrás das lentes.

 

Puerto Madryn, 18 a 21 de novembro de 2011.

Compramos suprimentos para uma churrascada e fomos acampar na simpática praia de Doradillos. No fim da praia tem pequenas cavernas formadas pelas ondas do mar, muito bonitas, mas fedem por causa das algas que ficam presas lá dentro. Durante o dia recebemos a visita de alguns flamingos à beira mar.

 

Flamingos em Doradillos

 

Cavernas em Doradillos

 

No fim do dia deixamos o casal de húngaros na rodoviária e fomos passear pela cidade, que por sinal não tem nada muito interessante, porém tem a maior quantidade de pizzaria que já vi em uma cidade. Aproveitamos para fazer a revisão do carro na concessionária e ficamos impressionados, muito mais barato que no Brasil e segundo eles nosso carro está em ótimo estado, ficamos muito contentes. Nosso carregador do computador faleceu e procuramos um novo por toda cidade e não encontramos. Ficamos três semanas sem poder escrever.

Começamos a planejar nosso próximo passeio acompanhado dos polacos. Nossa idéia era ir com eles até o Ushuaia, mas eles já haviam passado por lá, e disseram que não havia nada muito interessante no caminho, então resolvemos fazer um roteiro diferente, descer pela Carreteira Austral no Chile. Ótima ideia, desde que havíamos esquecido de colocar a Carreteira em nossos planos.

Buenos Aires

Buenos Aires, 15 de outubro a 15 de novembro de 2011

Viajamos durante 3 dias, fizemos 1500 km com muita calma. Perdemos vários minutos em postos policiais, pra variar. Dormimos em postos de combustíveis, conversamos com vários caminhoneiros, comemos onde eles comem e, por sinal, comem muito bem. No último dia de viajem antes de chegar a BA, aproveitamos para acampar e dormir uma última noite na nossa querida e confortável barraca, pois ficaríamos 1 mês em um estúdio flat. Acampamos em Zarate, que fica a mais ou menos 60 km de BA, uma cidade que contém várias indústrias e aparentemente muito rica. Para chegar à região dos campings, você tem que atravessar uma ponte bem interessante, de aproximadamente 4 km, mas para isso tem que pagar um bom pedágio para atravessá-la, porém quase todos os campings oferecem uma autorização isentando você de pagar o pedágio cada vez que precise ir ao centro da cidade. Lá, ficamos no camping El Faro, que fica à beira do canal. O canal é pequeno, mas os barcos que passam por lá são enormes. Tivemos a oportunidade de conhecer Juan Carlos, o simpático dono do El Faro, que nos preparou um delicioso churrasco de costela a moda argentina, acompanhado de cerveja e surpreendentes histórias sobre a vida. Ele fez daquele pequeno pedacinho de terra um delicioso paraíso com muitas flores muito bem cuidadas, onde ele passa muito tempo trabalhando, e neste pequeno paraíso que ele busca a tranquilidade para a cura de seu câncer. Estamos torcendo por ele.

 

Camping El Faro em Zarate

 

Buenos Aires finalmente! Chegamos no sábado pela manhã, o transito estava calmo. A localização do apartamento que alugamos foi perfeita, próximo da 9 de Julio, da praça do Congresso, da Casa Rosada, o que nos possibilitou de conhecer os principais pontos turísticos a pé. Para quem tiver interesse de ficar em BA com a comodidade de uma casa, existem vários sites de imobiliárias que alugam apartamentos para turistas sem burocracia, você escolhe o tempo que deseja permanecer, o contrato é simples e tem apartamentos para todos os gostos e bolsos. Em geral são bem mais baratos que hotel e a conta de água, gás, energia, tv a cabo e internet (nem sempre) estão inclusas no valor da diária, a única taxa extra é da limpeza, que não é cara. Nos primeiros dias esquecemos que éramos turistas e tiramos um tempo para brincar de casinha, antes de começar a ser turistas.

 

Brincando de casinha!

 

Depois resolvemos virar turistas típicos, fizemos um passeio com aqueles ônibus de dois andares para conhecer os principais pontos turísticos e descobrir quais eram os mais interessantes para desfrutarmos com mais tempo. Nas informações turísticas recebemos um guia para conhecer BA a pé. As duas opções são interessantes. De ônibus você aprecia o que BA tem de melhor para oferecer em um único dia. Não deixe de fazer o roteiro durante o dia e durante a noite, é sempre bom conhecer a versão noturna da cidade. A pé com calma, você visita todos os pontos, tira todo o tempo necessário para fazer lindas fotos, sentir o cheiro dos diversos restaurantes que se encontram no caminho, entrar e sair dos museus sem pressa e descobrir muitas surpresas no caminho.

 

Vista do obelisco de uma das grandes avenidas!

 

Tivemos a oportunidade de chegar à véspera das eleições e acompanhar os protestos dos socialistas. Por que será que nunca vejo os capitalistas protestando? Sei o que responder, mas acho que muitos amigos meus não vão gostar da minha opinião…

 

Protestos no meio da avenida 9 de Julio

 

Protesto no dia da eleição

 

Várias pessoas nos perguntaram o que iríamos fazer durante um mês inteiro em Buenos Aires. Realmente, um mês é muita coisa, porém a cidade tem muito a oferecer. Todo dia fazemos um roteiro diferente, e mesmo assim sempre parece que temos pouco tempo para tanta coisa. O que desfrutar? São muitas opções de livrarias, cafés deliciosos, bares, restaurantes, pizzarias, música, teatros, museus, feiras, parques, monumentos, arquitetura e tango. Achou pouco? Aproveitamos também este tempo para rever algumas pessoas queridas. Tivemos a oportunidade de encontrar a Lia, prima do Julio, que vive em BA e recebemos também a visita dos nossos queridos cunhados Ricardo e João. Curtimos balada, pub, restaurantes, fizemos compras, refizemos turismo e matamos um pouco da saudade dos familiares. E por último nosso querido amigo Jean que participou de dois eventos muito importantes na cidade. O show do Kyuss Lives!, acompanhado do Julio… (não faz meu estilo) mas os dois voltaram muito felizes. E o outro, tão esperado por mim, o show do Pearl Jam, que poderíamos assistir milhões de vezes e sempre nos emocionarmos. O mais engraçado de assistir show na argentina é escutar eles acompanhando os riffs com oOoOoOoOoOo. Em questão de público os argentinos estão de parabéns pela empolgação.

 

João, Ricardo e Julio no Jardim Japonês! Matando saudades da família!

 

Julio e Jean falando de música! Matando a saudade dos amigos!

 

Sem palavras! Não vou chorar.... não vou chorar!

 

Mas nem tudo são flores para nossos ouvidos. Certo dia resolvemos sair para curtir um cover de Nirvana, num bar underground (isso geralmente significa um bar sujo, caro, escuro, com donos sequelados e um atendimento completamente inexperiente, a única vantagem desse ambiente é ter a oportunidade de ouvir boas bandas de rock de garagem) chegando lá tinha um sujeito com o cabelo alisado e descolorido, calça rasgada e camiseta do Nirvana, supomos que ele seria da banda. A primeira banda tocou um stoner rock em espanhol, muito bem tocado, ficou interessante. Quando sobe a banda cover de Nirvana, o sujeito o qual nos referimos estava lá, era o vocalista e guitarrista, a sua guitarra era estilo Lenny Kravitz e brilhava, pode parecer preconceito, mas pela guitarra não esperávamos muito. A banda começa, esse sujeito solta o cabelo pra fazer mala de roqueiro descolado, mas o cara simplesmente não sabe tocar nem cantar, caí num acesso de riso, nosso dinheiro da entrada foi pro ralo, no início da segunda música já estávamos desesperados com tamanha desafinação e falta de sintonia da banda. Não aguentamos, tivemos que sair dali, nossos ouvidos não são penicos. Foi definitivamente a pior banda cover que já assistimos.

Tem muitas opções de passeios na cidade, adoramos muito passear por Puerto Madero, tem diversos prédios modernos de grandes empresas, um ambiente arrojado, organizado, com lindos parques e diversas opções de bares e restaurantes. Não deixe de visitar o museu Amalia que tem lindas obras e uma infraestrutura de museu alto nível, acho que foi um dos museus que mais nos identificamos até agora, o mais caro também, mas vale a pena. No canal tem dois navios museus atracados que estão disponíveis para que você possa conhecer e desfrutar de muitas histórias em suas expedições. Na ponte da mulher é interessante andar olhando para cima, dá sensação que ela está em movimento. Na avenida que dá pro lado do rio, você vai sentir um delicioso cheirinho de churrasco, onde estão vários barzinhos que servem choripan e parrilladas, mas não se arrisque, a não ser que você goste de comer onde os pombos comem, aí tudo bem… antes do público chegar, as comidas ficam expostas em mesas onde os pombos petiscam um pouquinho para testar se o sabor está bom, ahhh… o que estou dizendo? Se eles sobrevivem, vocês também sobreviverão!!!! huahauaua!!!

 

Um pouco da arte de Gabriel Fernandez, com "Abuelito".

 

Se você estiver com vontade de comer uma deliciosa comida Made in China, Bairro Chino tem. Basta ir para Belgrano.

Tem uma rua que quase não se comenta nos guias, fica no bairro Abastos, lá você vai encontrar algumas casas com pinturas tradicionais, vale a pena conferir. Lá tem também um antigo mercado que foi transformado em um shopping muito bonito e com uma excelente praça de alimentação.

 

Julio em Abastos, o lar do tango e de Carlos Gardel

 

Casinhas pintadas em Abastos

 

Muitos turistas vão até o Congresso, tiram fotos e se esquecem de conhecê-lo. A visita ao congresso é guiada e gratuita. É um momento excelente para conhecer um pouco sobre a história da política argentina e, provavelmente, você encontrará um guia muito agradável para conversar que fará com que um simples passeio vire uma aula de história com fatos muito curiosos.

 

O imponente Congresso Nacional

 

Cachorros sendo "passeados" na praça do Congresso

 

Se você quiser conhecer o Teatro Colon, oportunidades não vão faltar. Com muito pouco você poderá assistir obras grandiosas, pois os ingressos estão disponíveis para todos os bolsos. Por exemplo, fomos assistir a ópera Fedra e os ingressos custavam de 300 pesos a 20 pesos, não preciso nem dizer quanto pagamos eheheh, o Julio achou terrível e queria os 20 pesos dele de volta. O Colon é um dos melhores teatros do mundo, têm excelente acústica e uma arquitetura incrível. O melhor é conhecer assistindo alguma apresentação, e o melhor de tudo é que você não precisa pagar caro pra isso, cultura aqui não é só pra quem pode. Para nós, isso foi fantástico… cadê o incentivo à cultura no Brasil?? Nesse lado a Argentina deu um baile.

Para quem gosta de rosas, é imperdível o roseiral de Palermo, nunca havíamos visto tantas rosas tão bem cultivadas em um único lugar, diversas espécies e perfumes, para uma apaixonada por flores como eu é um encanto para os olhos e nariz. E para casais, um romântico lugar para passeio. Homens, fica a dica para melhorar o humor de qualquer mulher.

 

Rosas em Palermo

 

João e Hanna no Rosedal

 

Outra ótima opção na região é visitar o Jardim Japonês. Fizemos a visita com o João e o Ricardo. Foi muito divertido, pois naquele mesmo dia tinha festival de mangá e anime com vários adolescentes vestidos como seus personagens favoritos.

 

Goku vs. Scorpion.... pra mim o Goku leva frouxo!

 

Malba, maravilhoso Malba. Muita arte, e você ainda tem a oportunidade de ver o auto retrato de Frida Kahlo e um autêntico Tarsilla Amaral. Ainda tivemos a sorte de ver bem próximo a super ex top model Cindy Crawford, que óbvio se não nos dissessem quem era nunca íamos adivinhar, a tv e produção fazem milagres.

O Caminito te rende fotos muito coloridas e aos domingos, se tiver sorte, você pega uma apresentação de teatro de rua. Um local turístico muito alegre, com barraquinhas de artesanato, muitas apresentações de tango e museu ao ar livre.

 

Hanna e as casinhas pintadas do Caminito

 

Hanna e a boneca ruiva, em algum museu no Caminito

 

Feira de Matadeiro fica um pouco distante do centro, mas vale a pena o passeio, tem cheiro bom de comida de barraquinhas, tem doces e compotas, tem tango e queijos, tem artesanato e chimarrão, tem muitos argentinos e poucos turistas para conhecer um pouco melhor suas tradições.

Se você gosta de sentir cheiro de cocô de gato, vá ao cemitério da Recoleta, e visite o túmulo de várias personalidades. Se você gosta de manifestações vá à casa rosada, sempre vai ter alguma pra você participar. Se você gosta de discução está no lugar certo, aqui os portenhos são ou 8 ou 80. Muito educados ou muito grosseiros. Esperamos que você tenha sorte.

 

Flor carnívora da Recoleta, tentando comer um aviãozinho

 

A comida da cidade não nos impressionou, ainda não vimos nada de especial com relação a carne argentina, talvez por ser a capital e por ser mais dedicado a culinária internacional do que local. Os preços são muito bons, em comparação à Floripa mesmo são ótimos. Mas foi saindo de BA, em direção à Península Valdés que sentimos o verdadeiro sabor da deliciosa carne Argentina. Num desses simples restaurantes de beira de estrada. Sem palavras para descrever a maciez e o sabor da carne. E o preço melhor ainda. Nada como mudar um pouco… depois de 30 dias foi bom descobrir novos bons ares.